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Segundo uma pesquisa, 64% das mulheres no agronegócio percebem a desigualdade de gênero ainda muito presente, refletindo o que possa ser o principal desafio para os próximos anos

 

 

No intento de celebrar o dia Internacional da Mulher, comemorado neste 8 de março, uma equipe da Secretaria da Agricultura, Pecuária e Aquicultura do Tocantins (Seagro) resolveu calçar a botina, pegar o caminho da roça e ir a busca das mulheres do agronegócio e do agroextrativismo no nosso estado, para contar um pouquinho das suas lutas e conquistas, servindo como inspiração e força para tantas outras que também visam conquistar o seu espaço na zona rural e no mundo.

Ainda no meio do caminho, com muitas ideias e sugestões, alguns questionamentos sobre a situação das mulheres surgiram em nossas mentes. E de lá pra cá o que mudou? E na zona rural? E no agronegócio, local culturalmente masculino, existe um lugar ao sol para as mulheres? Não é de hoje que vemos nas inúmeras manchetes, a batalha das mulheres, ao longo dos anos, no Brasil e no mundo, pedindo por equiparação salarial, oportunidade de mostrar seus trabalhos, o fim da violência contra mulheres e tantas outras lutas por meio de manifestações, greves, criação de comitês.

A nossa vontade em buscar uma boa história para contar nos levou ao primeiro destino, o município de Xambioá, localizado a 494 km da capital, na região Norte do Tocantins. Foi lá que encontramos a Cooperativa dos Artesãos de Biojóias de Xambioá (COOABX) uma cooperativa formada por 20 mulheres artesãs, responsáveis pela marca de biojóias, Xambiart, que encontraram no agroextrativismo uma oportunidade de não apenas buscarem um sustento para as suas famílias, mas também de exporem seus trabalhos e conquistarem um espaço na moda, no artesanato e no empreendedorismo.

A presidente da cooperativa, Jaqueline de Oliveira Freitas, de 33 anos, que também é uma das artesãs, nos contou um pouco sobre como funcionam as atividades do grupo. “O trabalho da cooperativa é todinho realizado pelas mulheres, desde a busca da matéria prima, feita no mato mesmo, o beneficiamento do material, que é descascamento dos materiais utilizados na produção das biojóias, o acabamento até a montagem dos produtos. E também a comercialização das peças depois de prontas. Todo o trabalho é feito pelas mulheres da cooperativa”, explicou a artesã.

Não diferente de tantas mulheres que precisam conciliar o trabalho com a vida pessoal, as artesãs também encontram obstáculos em sua trajetória profissional. “O nosso maior desafio, enquanto mulheres, para conquistarmos esse nosso espaço, é conciliar o nosso trabalho na cooperativa com as outras atividades como família, casa e vida doméstica. Quando temos algum evento fora da cidade, às vezes fica complicado para sair em viagem e isso acaba tirando a oportunidade de algumas cooperadoras”, pontuou Jaqueline.

Sobre as dificuldades de conduzir um empreendimento dentro do agroextrativismo, a presidente da cooperativa nos explica que em muitas ocasiões de negócio, quando é explicado que o trabalho é realizado por um grupo de mulheres nem sempre ele é valorizado por todos. “O nosso trabalho deveria ser valorizado sempre, pois nós mulheres conseguimos alcançar qualquer objetivo, assim como os homens alcançam. E exemplos disso existem muitos por aí mostrando que pela nossa capacidade, equilíbrio e sensibilidade algumas mulheres podem ir mais longe do que certos homens”, finaliza.

Ser mulher no agronegócio

Em 2021 um grupo formado por mulheres profissionais do agronegócio, o Agroligadas, conduziu uma pesquisa nacional, com o apoio de empresas privadas, a fim de avaliar como as mulheres no agro percebem os avanços em torno do tema e relacionar os desafios que ainda se fazem presentes na vida da mulher campo.

A pesquisa foi realizada com um método híbrido, envolvendo entrevistas telefônicas, coleta de dados de forma presencial e a aplicação de um questionário online, onde foram ouvidas 408 mulheres que possuem idade média de 40 anos e atuam no agronegócio ha pelo menos 15 anos. De acordo com o estudo, das mulheres entrevistadas 97% delas estão felizes com suas atividades, 72% se sentem ouvidas como mulheres em um universo ainda de maioria masculina, 68% sentem-se livres para tomar as próprias decisões em como conduzir seus negócios e 64% percebem a desigualdade de gênero ainda muito presente no setor, refletindo o que possa ser o principal desafio para o agronegócio para os próximos anos.

Trazendo o agronegócio para a realidade aqui do nosso estado, fomos conhecer a senhora Eliana Barbosa de Sousa, de 63 anos, apaixonada pela vida no campo, empresária e produtora rural na área da criação de gado, produção de queijos e laticínios, no município de Tocantínia, a 202 km de Palmas. Ela nos conta que “os desafios sempre foram muitos, mas principalmente na área financeira, pois houve um tempo em que eu não tinha propriedade. Então no começo eu tive de juntar uma renda pra poder comprar uma terra. Eu já era mãe de quatro filhos, e puxava uma vaquinha pelo cabresto e levava ela pra comer nos quintais e terrenos baldios. Naquela época as pessoas me ofereciam, de bom grado, uma área aqui, outro quintal ali e eu ia fazendo aquilo com muito prazer, pois eu gostava e queria investir naquela vida”, conta Eliana.

Questionada se em algum momento de sua trajetória profissional o fato de ser mulher lhe trouxe algum desafio, a empresária nos conta que não se lembra de ter tido tantas críticas destrutivas por ser mulher, pois em seu começo algumas pessoas apenas achavam impossível que ela iria alcançar o seu objetivo, “então eu não entendi como preconceito, mas sim como um desafio, e como na minha vida tudo sempre foi na base do desafio e do aprendizado, eu apenas procurei fazer a minha parte e tentar viver melhor cada dia”, justificou.

Mulher na Agricultura familiar

Já em Palmas, fomos até o Assentamento Mariana, conhecer um pouco da trajetória da agricultora familiar, Mirian Correia Lima da Costa, que trabalha com a produção de remédios a base de ervas natural, polpas de fruta e a criação de pequenos animais. De acordo com Mirian, seu foco de trabalho é no segmento da sustentabilidade, onde ela procurar sempre preservar e aproveitar o que a natureza pode proporcionar.

Em entrevista a agricultora nos conta como foi início do seu trabalho, “comecei com minha própria renda criando galinha caipira melhorada, e junto a isso eu já tinha o hábito de fazer meus remédios naturais para pessoas da minha família e alguns vizinhos. Com o passar do tempo às pessoas começaram a me procurar e a fazer encomendas dos remédios naturais. Elas vinham indicadas por outras pessoas que já tinham tomado algum dos meus remédios naturais”, explica.

Sobre os desafios de iniciar um negócio próprio e sendo mulher, Mirian revela os primeiros obstáculos enfrentados. “O primeiro desafio que encontrei para começar o meu negócio foi na minha própria casa com o meu esposo, pois ele não acreditava que frango melhorado tivesse aceitação no comércio e que eu não seria capaz de produzir. Sem dinheiro eu resolvi recorrer ao Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar, o Pronaf, era pouco dinheiro, e por ser mulher eu ainda iria precisar da aprovação do marido na documentação. Como não tinha o apoio dele eu tive que fazer o financiamento no nome do meu filho”, conta Mirian.

Agrotins

Sobre as oportunidades que foram surgindo em seu trabalho, a agricultora familiar, Mirian Correia Lima da Costa, destaca a sua participação na Agrotins, a feira Agrotecnológica do Tocantins, reconhecida nacionalmente como um evento técnico do setor agropecuário, que tem como objetivo destacar as potencialidades do agronegócio, assim como apoio e divulgação das ações de pesquisa, adaptação, validação, divulgação e transferência de tecnologias ao setor produtivo do Estado e região. “Eu gosto de participar da Agrotins porque eu não só exponho meus produtos, mas também troco conhecimento com as companheiras agroextrativistas e aproveito para aperfeiçoar o meus trabalhos através dos cursos de capacitação oferecidos pela Secretaria da Agricultura, Pecuária e Aquicultura, a Seagro”, explica.

O futuro da mulher no agronegócio e no agroextrativismo

Quando perguntada sobre o futuro da mulher no agro, a produtora de laticínios crê que a mulher precisa usar a sua inteligência e seguir na luta mesmo não tendo tantos recursos. “Foi o que eu fiz com o pouco que eu tinha. Eu trabalhei muito. Eu levantava as três da manhã para começar os meus trabalhos e nunca me arrependi um dia sequer de ter feito tudo o que eu fiz. E hoje, mesmo com a minha idade já avançada, eu sigo feliz fazendo o que eu gosto de fazer, pois é pelo meu trabalho que eu consigo levar o alimento a mesa do consumidor, que eu consigo ter o alimento para os meus filhos e pra quem chegar na minha casa”, explica Eliana.

A artesã Jaqueline acredita que o lugar de mulher é onde ela quiser, e espera que no futuro a cooperativa seja fortalecida por mais mulheres e que elas possam ser reconhecidas pelos seus trabalhos. “O nosso desejo para as futuras mulheres empreendedoras do agroextrativismo, é que elas possam acreditar em si. Na capacidade que possuem e no desejo de mudar o mundo. Acreditando que elas podem conseguir qualquer coisa se elas realmente quiserem e derem o primeiro passo. Nada é impossível quando se quer alcançar o objetivo e quando se caminha para isso. As mulheres tem que acreditar em si e não nos pensamentos negativos que possam vir de outras pessoas”, finaliza a presidente da cooperativa.

A agricultora, Mirian, ressalta a importância da persistência e foco necessário para se construir uma carreira no agro. “Eu sofri muita descriminação ao longo desse caminho. E uma coisa eu digo para todas as mulheres, não desistam dos seus objetivos! Mesmo quando alguém do seu lado disser que não dará certo, não pare. E se o primeiro empreendimento não der certo, continue tentando. Não desista, pois eu não desisti e hoje posso afirmar que fiz o correto”, finaliza.

8 de março

Dia Internacional da Mulher é uma data comemorativa oficializada pela Organização das Nações Unidas na década de 1970. A celebração remete a luta histórica das mulheres, que inicialmente reivindicavam por condições equiparadas às dos homens e que com o passar do tempo além da luta pelo direito a um salário digno, começaram a discutir outras pautas que mobilizariam a sociedade a discutir a violência contra a mulher, o machismo e busca por melhores condições de vida.

No Brasil, as movimentações em prol dos direitos da mulher e a busca por igualdade surgiram em meio aos grupos anarquistas ainda no início do século 20, onde nos mais diversos seguimentos da sociedade brasileira, a luta era por melhores condições de trabalho e qualidade de vida para as mulheres tanto na cidade quanto na zona rural.

Com informações de: https://agroligadas.com.br/

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