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Com uma cultura matriarcal, Ilana Ribeiro e Railane Ribeiro trabalham para a preservação do legado deixado por Dona Miúda.

 

Uma comunidade matriarcal, é como as jovens Railane Ribeiro e Ilana Ribeiro definem o povoado do Mumbuca, localizado no município de Mateiros, região do Jalapão. Seguindo com a série Mulheres do Tocantins, apresentamos a história dessas jovens que lutam para a conservação e manutenção da cultura quilombola e como o fator ser mulher é determinante para o reconhecimento e desenvolvimento da comunidade.

Railane Ribeiro da Silva, 27 anos, é a presidente mais nova da história da Associação dos Artesãos Extrativistas do Povoado Mumbuca, em atividade há 21 anos. Ilana Ribeiro Cardoso, 36 anos, é guia turística e a primeira mulher quilombola do Tocantins a desenvolver o turismo de base comunitária. Duas mulheres jovens, com trajetórias diferentes, porém, ambas saíram de suas casas para estudar, mas escolheram retornar, com um objetivo em comum, o de manter viva a cultura quilombola do povoado do Mumbuca.

Railane já teve que lidar com muitas dificuldades no caminho para assumir a posição de presidente da Associação, de representar o seu povo. “A questão da minha idade e de ser mulher foi um desafio gigante, mas ainda bem que quem sustenta a comunidade são as mulheres, os homens também trabalham, mas as mulheres são as que movimentam a comunidade”, pontua.

Mesmo com tanta resistência no início, Railane se mostrou resiliente e foi conquistando a confiança das pessoas mais velhas e tradicionais da comunidade, por acreditar que era o momento de haver mudanças. “Na história da Associação que tem 21 anos, nunca teve uma presidente tão jovem e que ainda mora com os pais, que teve o crédito de ser presidente como eu. Eu enfrentei muita resistência por causa da minha idade, por parte das pessoas mais velhas, com mais raiz e tradição, mas depois eu fui construindo o meu espaço e deu certo. A Associação é cultural e tradicional, mas temos que acompanhar a tecnologia, se não fica para trás, tínhamos um passado com gestores que só focavam na loja e não é só isso. Aqui tem receita federal, prestação de contas anualmente, documentos de carros, tem projetos para buscar fora, participar de editais. A própria comunidade estava vendo que estacionamos e com isso, depositaram confiança em mim e hoje estou presidente da Associação há 11 meses”, conta.

Turismo de Base Comunitária

“O turismo está na minha vida desde os 18 anos. Comecei a trabalhar como guia local, trabalhei em órgão público e estudei em outros lugares para me capacitar, como na Amazônia, onde foi minha inspiração para trabalhar no turismo de base comunitária aqui no quilombo”, assim iniciou a trajetória de Ilana Ribeiro com o turismo no intuito de organizar a comunidade e mostrar a história do seu povo.

“Comecei a trabalhar na parte de organização interna da comunidade, restaurantes, pousadas, vivência das pessoas com a comunidade, montar um roteiro diferenciado, para que pudesse mostrar a história do meu povo. Daí comecei a pensar também sobre a gente fazer roteiros com vivência na natureza, que são as trilhas que os nativos usavam antigamente. Então, são essas as atividades que faço na comunidade, além de toda a vivência, tem a Doutora [personagem que será retratada em outra matéria da série Mulheres do Tocantins] que mostra as plantas medicinais, a nossa história, faço a oficina da costura do capim dourado, vivência da fogueira pela noite, a experiência de dormir numa casa de adubo, um turismo de base comunitária completo”, explica Ilana Ribeiro.

A guia turística reforça que o mais importante nesse processo é mostrar para as pessoas como elas são felizes na comunidade.  “Eu mostro para as pessoas que nós somos felizes com o simples que temos. O turista, com essa vivência que eles veem na comunidade, eles se transformam, tem grupos que pedem para ficar mais um dia. Então, isso é gratificante porque é algo que gosto muito de fazer. Não é nem questão de ganhar dinheiro, não é o dinheiro que me faz feliz, mas ver a comunidade crescendo, economia e bem-estar do povoado”, declara.

Força Matriarcal

É unânime as histórias quando contam a origem do povoado do Mumbuca, que é sustentada por mulheres. “A nossa força vem das raízes de mulheres, a mãe da minha avó, foi quem desbravou tudo isso aqui junto com o marido dela. Eles foram para o campo e encontraram juntos, o capim dourado, mas foi a minha avó, a Dona Miúda,  quem fez a primeira arte para o mundo, que trouxe o reconhecimento para nós com uma arte tão simples, foi através de uma mulher”, conta a presidente da Associação, Railane Ribeiro.

Em seu relato, a presidente da Associação destaca também o papel das mulheres em várias frentes no povoado. “Nascemos num século melhor, eu não preciso ir para roça, a minha irmã também não, nós temos condições de pagar uma pessoa para ir fazer o serviço. Mas as mulheres de antigamente não só costuravam, elas também faziam a suas roças, têm senhoras aqui, que até hoje fazem questão de plantar a sua mandioquinha e fazer suas coisinhas são mulheres do passado, que trazem a sua resistência. Não estou dizendo que o homem aqui na comunidade não trabalha, os homens vão para roça sim, tem homem com roças gigantes. Mas as mulheres acabam pegando muito papel na sociedade e com isso acabam se destacando muito mais que o homem”, explica.

A guia turística, Ilana Ribeiro, acrescenta ainda que a força matriarcal da comunidade é que faz o povoado do Mumbuca se destacar no turismo de base comunitária. “Não sei se é porque somos uma comunidade matriarcal, mas as histórias dizem que sempre teve uma mulher à frente aqui na comunidade, sempre foi a voz da mulher, e isso continua ainda hoje, na questão do empreendedorismo, em tudo, e  na questão da base comunitária não seria diferente, sempre foi comandada mais por mulheres”, complementa.

Futuro

Questionadas sobre os próximos desafios, Railane e Ilana estão focadas em continuar valorizando o seu povoado por meio de suas atividades. “Depois que eu virei gestora, o que eu mais me preocupo são os jovens, nós temos muitos jovens aqui, e não temos emprego para esse tanto de jovens, não temos oportunidades de estudo para todos. Por isso estamos expandindo a Associação, buscando recursos, estamos montando um labin [laboratório de informática] para dar cursos para os jovens, estamos correndo atrás de editais para fortalecer nossos artistas, nossas quebradeiras de coco, as pessoas que trabalham com as plantas medicinais para que os jovens possam ver, que eles não precisam sair daqui totalmente, que eles podem ir, mas que podem voltar para trabalhar aqui”, destaca Railane.

Já Ilana Ribeiro tem buscado cada vez mais conhecimento para construir uma rede de mulheres que trabalham com turismo de base comunitária entre as comunidades quilombolas do Jalapão. “Eu acredito e tenho buscado projetos que vejo fora, como no Rio de Janeiro, por exemplo, que tem uma comunidade feita por uma mulher quilombola que está montando uma rede de Turismo só de mulheres. No momento, trabalho aqui no Mumbuca, mas tenho projeto no Prata, Rio Novo e quero futuramente criar uma rede de mulheres e de roteiros nas outras comunidades com base comunitária. Quero ver outras comunidades com mulheres à frente no turismo de base comunitária”, conclui.

 

 

 

(Crédito fotos: Tharson Lopes/Governo do Tocantins)

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